22 de junho de 2009

Simone Shitrit




Bate-papo com Simone Shitrit


Quando criei a coluna "Perfumes & Etc entrevista Gente Criativa" tive uma musa inspiradora, com a qual desejava inaugurar o espaço. Quando falo "Gente Criativa", não posso deixar de pensar na minha amiga Simone Shitrit. Por causa de nossas respectivas agendas tumultuadas e horários diferenciados, não pudemos dar vazão ao nosso projeto inicial. Porém, nunca deixei de associar o termo "Gente Criativa" a Simone.

Profissional de sucesso na área jurídica corporativa e financeira, Simone Shitrit sempre nutriu uma paixão pelas fragrâncias. E foi a carreira de advocacia que possibilitou-lhe um contato com o mundo dos cosméticos. Não podendo ignorar o fato de que a realização plena só seria possível pela união entre trabalho e paixão, Simone desligou-se do mundo jurídico e começou a estudar aromaterapia e aromacologia, trabalhando posteriormente como consultora em um dos mais badalados Spas de São Paulo. No entanto, a necessidade de escrever e desenvolver projetos ligados aos perfumes era latente, sendo a razão de um novo direcionamento profissional.

Simone trabalha atualmente no ramo da perfumaria, acumulando as funções de consultora, diretora executiva do Centro para Difusão do Conhecimento do Perfume, crítica na revista online Perfume Critic, além de brilhar como editora e autora do blog Mais Que Perfume, um dos espaços pioneiros a abordar o assunto na blogosfera brasileira. Porém, Mais Que Perfume, como diz o nome, não se restringe somente a análise olfativa, estendendo-se a temas como design, moda e cultura geral, de forma envolvente e original.

Finalmente, surgiu a oportunidade para publicar a entrevista com essa figura notável. E eu não posso conter a alegria em trazer ao Perfumes & Etc minha amiga, Simone Shitrit.


Perfumes & Etc - Simone, como surgiu a idéia do Mais Que Perfume?
Simone Shitrit - A idéia do blog surgiu quando eu estava elaborando o site +Q Perfume. Eu queria ter um site com todas as informações sobre perfumes, perfumistas, perfumaria e o senso do olfato. Quanto mais eu pesquisava para criar o site, mais eu percebia que não existia material em português suficiente para pesquisa. Resolvi então fazer um blog em português para que pessoas como eu pudessem ler sobre o assunto. Com o tempo também percebi que o Brasil é grande produtor de fragrâncias, grande consumidor de perfumes, mas muito tímido para falar do assunto. Coloquei como objetivo para o blog, ser um espaço aberto onde as pessoas poderiam falar do assunto, dar opiniões e se informar do que está acontecendo no mercado. Como eu recebi apoio da Fragrance Foundation e do Sense of Smell Institute e percebi que muitos estrangeiros também queriam participar, tornei o blog bilingue (português e inglês). O projeto então foi crescendo, tomando novos rumos, visitando novas marcas. Felizmente não estou sozinha. Desde que começei a escrever no meu blog, descobri que existem mais brasileiros que dividem essa paixão pelas fragrâncias.


Perfumes & Etc - Acho o teu espaço realmente inovador, tanto pela estrutura dos textos, como pela comunicação visual. Qual a marca de estilo que você pretende imprimir?
Simone Shitrit - Acho que a minha pessoal. Sempre amei design, artes e o dinamismo das coisas. O blog reflete muito o meu jeito pessoal de ser e os meus interesses. Procuro escrever sobre coisas que eu gosto, que me fascinam, que me intrigam. Não gosto de fazer críticas negativas ou falar mal do trabalho dos outros. Primeiro porque não acredito neste tipo de energia e segundo por que acho que os meus leitores tem toda condição de criar uma visão crítica pessoal e conseguir perceber o que há de bom e o que existe de ruim no mercado. Tento intercalar matérias elaboradas e mais extensas com bate-bolas rápidos, pois sei que nem sempre temos tempo ou paciência de ler textos longos. Eu tenho um lado humorístico também. Ele aparece no blog quando atiço os meus leitores com perguntas e brincadeiras.


Perfumes & Etc - O que você acha que falta atualmente na indústria Brasileira de Perfumaria?
Simone Shitrit - A perfumaria brasileira não fica atrás de nenhuma do mundo. Nossos perfumes são bem elaborados, criativos e inovadores. Possuimos fragrâncias regionais maravilhosas como as amazônicas. Falta conhecimento de perfumaria de nicho. Falta desenvolvimento técnico. Nossos perfumistas fazem muitos cursos no exterior. Falta uma escola de perfumaria nacional. Falta discutir perfumaria. Faltam eventos ligados a perfume de acesso ao público leigo. Acho que perfumaria nacional não se restringe somente as maravilhosas empresas da Natura e do Boticário. Existem outras marcas oferecendo produtos interessantes.


Perfumes & Etc - Agora, conte-nos um pouco sobre os teus gostos pessoais. Quais são as tuas fragrâncias prediletas, no momento?
Simone Shitrit - Realmente você colocou bem ao perguntar sobre as minhas fragrâncias preferidas deste momento. Não consigo manter uma relação muito fiel com meus perfumes. Uso vários, deixo de usá-los, volto a usar de novo numa outra fase da vida. Procuro estar aberta sempre a novas experiências olfativas. Gosto muito de florais frutais e chipres. Na verdade, quem olha para dentro de meu armário deve ficar espantado ou achar que eu sou louca devido a quantidade de frascos de perfume que eu tenho. Atualmente comecei a gostar de cítricos, um tipo de fragrância que não me interessava antigamente. Estou usando algumas fragrâncias da marca Ormonde Jayne, tais como Frangipani, Champaca e Woman. Mas gosto da coleção toda. Tenho um carinho especial por Coco Mademoiselle de Chanel e Euphoria de Calvin Klein. Gosto muito do perfume Summer, de Kenzo. Eu tenho também perfumes que eu chamo de perfumes-conceito, que adquiri por estar fascinada pelo conceito, mas que não uso. Nessa linha tenho o Black, de Bvlgari e Elixir de Merveilles, de Hermès. Você também tem perfumes interessantes. Morro de inveja de não usar o perfume Infusion d'Iris, de Prada que não reage bem ao meu tipo de pele. Eu sei que em você o perfume fica maravilhoso!


Perfumes & Etc - Temos visto surgir uma onda de jovens e talentosos perfumistas. Dentre ele, quais são os que te despertam admiração?
Simone Shitrit - Não é segredo que eu sou fã de Andy Tauer. Acho o perfume LoneStar Memories o perfume mais incrível que já conheci. Acho Linda Pilkington, a criadora dos perfumes Ormonde Jayne extremamente talentosa e de um bom gosto fora do comum. Seus perfumes são chiques e marcantes. Sou fã de Isabelle Doyne que continua assinar pelos perfumes de Annick Goutal, perfumista que também admiro muito e sou apaixonada pelas suas criações. Adoro Calice Becker. Mas o meu grande amor e fonte de inspiração é Jean Claude Ellena. Sou simplesmente fascinada por ele, pela sua paixão e devoção aos perfumes. First foi meu primeiro perfume (risada). Mas eu tenho uma lista longa. Lembrei desses agora.


Perfumes & Etc - Para finalizar, como você vê o futuro do circuito nacional de perfumaria - tanto em termos literários (blogs, livros), quanto no setor industrial?
Simone Shitrit - Na minha opinião, somos pioneiras na blogosfera e espero que possamos inspirar muitas pessoas para que não só desenvolvam essa paixão por perfumes, mas que discutam conosco, discutam em seus próprios espaços. Eu sinto que aos poucos os brasileiros estão entrando mais a fundo e se interessando mais sobre o assunto. Tem até personagem de novela da Globo perfumista! Acho que muitos livros serão traduzidos para o português e muitos serão escritos por entendidos do assunto. Acho que nós, que somos formadores de opinião devíamos nos juntar para elaborar algum projeto. Na área indústrial o crescimento ainda está maior na fatia das fragrâncias para domosanitários. Porém eu já escrevi um artigo no meu blog sobre o crescimento dos países do BRIC, do desenvolvimento da influência na formação de opinião e de tendências para perfumaria e moda.


Perfumes & Etc - Simone, foi um imenso prazer receber-te no Perfumes & Etc. Somos (falo no plural, pois englobo boa parte dos meus leitores) grandes admiradores do teu trabalho. Continue-nos encantando com o Mais que Perfume, um espaço alegre e branché, onde as mais diversas formas de expressão artística unem-se a um universo perfumado.
Simone Shitrit - O convite me deixou super feliz pois voltamos a fazer algo juntas! Para mim é muito importante saber que o seu blog busca ouvir outros autores. Adorei bater papo e espero poder continuar sempre dividindo essa paixão por perfumes com você. Afinal nós temos muitas afinidades e interesses que extrapolam as fragrâncias!!!



Ilustração ao alto - Simone Shitrit. Ilustração utilizada com a permissão de Simone Shitrit. Reprodução proibida.



21 de junho de 2009

Stella


Stella


Autores: Gaëlle Morel e Leo Hegg


Stella McCartney faz parte da geração de estilistas britânicos que explodiram em meados dos anos 90. Tal e qual seus contemporâneos John Galliano, Matthew Williamson e Alexander McQueen, Stella diplomou-se pela reputada Saint Martin College of Art & Design. O desfile de sua coleção de formatura fez furor, contando com ninguém menos que as supermodels Naomi Campbell, Kate Moss e Yasmin Le Bon, e mostrando a base do que seria seu estilo - criações fluidas com grande ênfase na alfaiataria, e uma aura que poderia ser descrita como uma mistura de English Rose e Carnaby Street.

Digna filha do ex-Beattle, Sir Paul Mc Cartney e de sua primeira esposa, a fotógrafa e ativista americana Linda McCartney (nascida Eastman), Stella segue a mesma ideologia de respeito à natureza e proteção aos animais, adotada por seus pais. Como Linda McCartney, Stella é vegetariana e ativista do PETA (People for the Ethical Treatment of Animals), recusando-se a usar peles e couros naturais em suas coleções. E foi em homenagem a Linda, falecida aos 56 anos em 17 de abril de 1998, que Stella criou seu primeiro perfume, lançado em Setembro de 2003.

Linda McCartney adorava rosas inglesas, e costumava sempre manter um vaso de flores frescas em sua mesa. "Esse foi o aroma com o qual cresci"*, declarou Stella, que procurou recriar a beleza e fragilidade do exato momento de vida das rosas antes que suas pétalas tombem.* O perfumista Jacques Cavallier assegurou-se que tal desejo fosse satisfeito, desenvolvendo uma fragrância menos complexa que suas criações precedentes.

Uma abertura discreta de peônia e mandarina é seguida pela grande estrela da composição, a rosa. A fusão entre a peônia, a essência de rosas e a mandarina proporciona uma sensação de frescor e suavidade, que é sucedido pelo absoluto de rosas, impondo uma certa profundidade ao conjunto. O âmbar ao fundo contribui com uma faceta de sensualidade e mistério. Apesar de não estar listado entre os componentes oficiais, apostamos na presença do almíscar na penúltima fase de evolução, antes que a dupla âmbar-absoluto de rosas domine o espetáculo.

Stella eau-de-parfum vem em um frasco de inspiração retrô, cujo design de facetas lapidadas e a coloração em dégradé de ameixa parecem evocar os anos 30, quando as embalagens tendiam a ser mais conservadoras e menos elaboradas, respeitando o clima pós-crash de 1929. O efeito sillage (rastro de perfume que paira no ar) é mínimo, o que quer dizer que a fragrância fica próxima do corpo. O poder de fixação foi satisfatório, e a permanência diferiu na pele dos autores (Gaëlle: 5 horas, Leo: mais de 20 horas).

Stella é um perfume perfeitamente condizente com as criações de Stella McCartney, unindo sutilidade e elegância, sem trair as origens britânicas da estilista. Também é uma bela declaração de amor a Linda, que costumava dizer que a simplicidade é a resposta.* Definitivamente, Stella McCartney teve a quem puxar.


Canção: Silly Love Songs - Paul Mc Cartney & Wings (1976) - participação de Linda McCartney
(clique na seta para ouvir)




Citações - *"It's just the smell I grew up with." - Stella McCartney
- *"I wanted to capture that beauty and fragility. That moment of perfection." - Stella McCartney
*"I don't need a lot of money. Simplicity is the answer for me." - Linda McCartney

Ilustrações ~ primeira à direita - English Rose - vintage poster
~ à esquerda - foto Linda McCartney - Paul, Stella and James - Scotland, 1982 - James Hyman Gallery
~ segunda à direita - Linda e Stella fotografadas no início dos anos 70



11 de junho de 2009

Omnia Green Jade


Omnia Green Jade


Omnia Green Jade é mais uma edição da coleção Omnia, de Bvlgari. Desenvolvida por Alberto Morillas, que também criou Bvlgari Blv feminino, Blv Note (masculino e feminino) e todos outros componentes da linha Omnia, bem como o original, Green Jade é classificado como um floral aquático. "Eu pensei na cor verde com sombras brancas, na energia dessa pedra milenar, símbolo do bom, do belo e do precioso"*, foi a definição de Morillas.

A fragrância foi inspirada pela pureza do jade verde, pedra que representa vida, juventude e crescimento pessoal, ajudando a quem a porta a descobrir seus desejos mais íntimos. O jade verde é associado ao chackra do coração, e facilita a expressão do amor.

Ligado a tal simbologia, eu esperava uma eau-de-toilette leve e etérea, e não fui decepcionada. A abertura evoca frescor e luminosidade unindo o caráter amargo da flor de pereira a mandarina. A peônia branca entra logo após, seguida por uma nota aquática. O jasmim impõe uma certa suavidade, que é temperada pela pistache em um fundo amadeirado e almiscarado. Essa terceira fase é, na minha opinião, a melhor - a sensação de conforto trazida pela união do almíscar e das notas amadeiradas, pouco antes que a pistache entre em cena.

Em termos de evolução, eu poderia dizer que a abertura de Omnia Green Jade é definitivamente "verde" e ligeiramente acre, passando a uma junção verde aquática, seguida por uma etapa que lembra vagamente a última fase de Infusion d'Iris, de Prada, assim permanecendo até o fim, quando uma determinada nota verde, que acredito ser a pistache, parece querer fazer surface. Verde - Branco - Verde, como as facetas do jade, e o conceito inicial de Morillas.

Tal como a pedra inspiradora, Omnia Green Jade é juvenil, lembrando-me paisagens abertas e passeios por parques em dias ensolarados. Um dia alegre passado em um elegante jardim italiano, essa é a imagem que vem-me a mente. Apesar de não ter-me despertado o desejo de adquirir um frasco, considero a última criação em data de Bvlgari como a melhor variação de Omnia, preferindo-a a Amethyste e Crystalline.

Por sua leveza e discrição, Omnia Green Jade é perfeitamente indicada para climas quentes, ambientes de trabalho e reuniões informais. O poder de fixação foi satisfatório, permanecendo 4 horas na minha pele e o efeito sillage é modesto.


PS - Dedico esta review a minha amiga Elisabeth Casagrande, "The Green Lady" por excelência :0)



*Citação - “I thought of its colours, green with white shadows, of the energy of this millenary gemstone, symbol of the good, the beautiful and the precious.” - Alberto Morillas

Ilustrações ~ ao alto - imagem de publicidade de Omnia Green Jade, de Bvlgari
~ à direita - An Italian Garden (cerca 1909), de William Merritt Chase (1849-1916)
~ à esquerda - Capa do livro
Edith Wharton's Italian Gardens, de Vivian Russell e Edith Wharton


8 de junho de 2009

Brincando de Perfumista - MyParfuem


Brincando de Perfumista - MyParfuem


Após ler a matéria no site Fragrantica falando da firma MyParfuem, que possibilitou ao grande público a elaboração de uma fragrância personalizada, eu não pude resistir a criar um perfume Gaëlle.

MyParfuem é uma empresa alemã que propõe a personalização de uma eau de parfum, disponibilizando um menu de 30 ingredientes exclusivos (no momento em que escrevo) a serem selecionados e integrados a uma das bases oferecidas. Entre as bases, constam: Female Flower (base floral), Female Fresh (elementos florais e frutais para um resultado esportivo e fresco), Female Fruity (base frutal), Female Exotic (uma base oriental com especiarias), Male Green (notas verdes), Male Spicy (especiarias), Male Fresh (a contraparte masculina de Female Fresh) e Male Exotic (versão masculina de Female Exotic).

O primeiro passo é a especificação do gênero (masculino ou feminino), seguindo-se pela escolha da base. O grande problema é que as mesmas são pré-produzidas, e o cliente fica no escuro, sem saber ao certo o que cada uma contém, contando somente com os descritivos gerais. Pensando que uma base oriental adequaria-se bem às notas que pretendia selecionar, escolhi Female Exotic.

Sem conhecer os ingredientes da base, optei pela simplicidade. Não queria um festival de notas em um fundo diversificado demais, criando um carnaval olfativo. Sendo assim, selecionei 4 componentes: amêndoas, baunilha, canela e cereja.

Um oriental moderadamente gourmand, tendo a amêndoa como grande estrela era o meu objetivo. Para tanto, graduei as proporções (numa escala de concentração de 1 a 3): 3 x Amêndoas, 2 x Baunilha, 1 x Cereja, 1 x Canela.

O segundo passo foi a a escolha do nome do perfume e da embalagem. Simploriamente, batizei minha primeira criação Gaëlle, e optei por um frasco com motivos abstratos em tom rosa. Desembolsei o valor de 29 Euros mais 6.90 Euros de custo de transporte, e esperei uma semana para o recebimento do meu frasco de 30ml.

O que recebi - Uma caixa contendo um certificado, um folheto explicativo, o código do meu perfume, um bônus de redução para futuras compras, e, claro Gaëlle (o perfume), devidamente colocado no meio da embalagem caprichada.

Gaëlle, o perfume - Resumindo: um grande desapontamento! Ao retirar a tampa, um aroma indefinido de colônia masculina invadiu minhas narinas. Ao tentar decriptar as notas, pude perceber a cereja e a amêndoa, que, tímidas e quase imperceptíveis tentavam submergir, sendo devoradas pela horrível base, que lembrava-me uma versão oriental de um desodorante Axe (ou Adidas). Após quarenta minutos, durante os quais mantive a esperança de uma mudança drástica na evolução da fragrância que poderia fazer valer a minha compra, a mesma... PUFT!...desapareceu.

Conclusão - Felicito MyParfuem pela idéia, que permite a cada um brincar de perfumista com um capital reduzido. Entretanto, as bases pré-formuladas são difíceis de serem trabalhadas, podendo levar a um resultado final completamente diferente do desejado.

Inúmeros pequenos e-tailers americanos disponibilizam um serviço semelhante, permitindo a criação de uma fragrância pessoal (sem a particularidade de seu nome impresso na embalagem), pela seleção de óleos aromáticos diversos, o que considero uma excelente opção na busca de individualização com baixos custos. Depois de uma primeira tentativa fracassada, eu não repetiria a brincadeira. Afinal, com 29 Euros eu poderia apostar em uma fragrância elaborada por um dos e-tailers citados, ficando certamente mais satisfeita. Sorry, MyParfuem!


Ilustrações ~ ao alto e à direita - Gaëlle, de Gaëlle Morel - eau de parfum fabricada pela empresa alemã My Parfuem - Fotos de coleção pessoal (reprodução proibida)



4 de junho de 2009

The Madonna of the Almonds


The Madonna of the Almonds


The Madonna of the Almonds é o novo livro de Marina Fiorato, jovem autora de origem Veneziana, nascida em Manchester. Marina que conheceu grande sucesso com o best-seller "The Glassblower of Murano", retorna ao tema da Renascença Italiana, dessa vez narrando o amor entre o pintor da escola lombarda Bernardino Luini e a nobre Simonetta di Saronno.

The Madonna of the Almonds é também um perfume, o mais recente lançamento de Floris of London, confeccionado em edição limitada em homenagem ao livro homônimo.

O Livro - Toscana, século XVI - A jovem e bela Simonetta acaba de perder seu amado marido Lorenzo em uma das batalhas feudais entre os estados Italianos. Descobrindo que Lorenzo não havia deixado muito dinheiro, Simonetta resolve explorar uma amendoeira em sua propriedade. Precisando de capital para o lançamento de seu negócio, Simonetta concorda em posar como modelo para um artista de nome Bernardino, pupilo de Leonardo da Vinci, que tem como projeto a pintura de murais na igreja. Bernardino, um sedutor cínico, surpreende-se ao apaixonar-se pouco a pouco por Simonetta. Durante um beijo trocado, ambos são flagrados pelo ajudante de Lorenzo, que fiel ao seu falecido mestre, denuncia-os a igreja. Bernardino deve fugir, e Simonetta retira-se em reclusão em sua casa. Durante esse período de tristeza e solidão, Simonetta cria um licor de amêndoas que viria a restituir a sua fortuna. O licor em questão nada mais é do que o famoso Amaretto.

O Perfume - The Madonna of the Almonds evoca a Italia em sua abertura de notas de limão e bergamota. O coração da fragrância é composto de amêndoas e jasmim, em fundo de baunilha, notas frutais, especiarias, incenso, sândalo e almíscar (notas oficiais divulgadas por Floris). Tendo o licor Amaretto como tema, o novo lançamento de Floris of London promete reunir o caráter voluptuoso da bebida com o bucolismo da paisagem medieval italiana.


Bernardino Luini, ou Bernardino de Scapis, realmente existiu, tendo nascido em 1481, em Runo, e falecido em 1532. Entre seus trabalhos, podemos citar a Adoração dos Magos (exposta no Louvre), e os afrescos da Madonna, em Saronno. A parte suas obras, cujo estilo evoca o mestre Da Vinci, não muito é conhecido sobre sua vida particular, o que permitiu a Marina Fiorato desenvolver a trama associando a imagem de Bernardino a lenda do Amaretto.

Uma estória de amor e arte, beleza e guerra que pode ser lida, e imaginada, ao exalarmos os eflúvios de seu próprio perfume. O que poderia ser mais poético?



Ilustrações ~ ao alto - capa do livro "The Madonna of the Almonds", de Marina Fiorato
~ à direita - La vierge à l’enfant (Madone de la roseraie), de Bernadino Luini (1508/1509)
~ à esquerda - "The Madonna of the Almonds", eau de parfum de Floris of London




26 de maio de 2009

Cheiro de Bebê


Cheiro de bebê



Não é segredo que eu sou uma grande fã dos aromas suaves, que evocam inocência e limpeza. Creio que todo utilizador habitual de perfumes precisa de um momento de pausa das fragrâncias habituais, ou tem dias em que algo descomplicado é simplesmente ideal. Quando isso acontece, eu recorro a dois naipes: os perfumes que classifico como "just out of the shower" (tema de um próximo artigo) - fragrâncias que evocam frescor, o odor do sabonete e o exato momento em que saímos do banho, ou os "cheirinhos de bebê", que lembram a simplicidade e pureza das primeiras colônias ou artigos de higiene infantis.

O aroma que muitos definem como "cheirinho de bebê" está presente em nossos subconscientes desde 1890, quando Johnson & Johnson lançou seu icônico talco. Na época, antes do advento das fraldas descartáveis, o talco Johnson's era a única maneira de manter os bebês secos e confortáveis, diz o diretor de produção global da marca, Fred Tewell. Tais sensações foram associadas ao odor do produto, que imprimiu-se na psiché americana.

Os odores de talcos e loções infantis têm a capacidade de despertar sentimentos de familiaridade e reconforto. Momentos de ternura podem ser relembrados pelo simples uso de uma fragrância que capture a singeleza dos primeiros carinhos.



Os Mais Verdadeiros



- Demeter Baby Powder - Demeter é uma marca famosa por reproduzir fielmente os mais diversos temas aromáticos, e a sua versão de talco para bebês é uma das mais perfeitas que pude sentir. As palavras "baby powder" são escritas com o mesmo tipo de letra e cores do logo da loção para bebês de Johnson's.



- Natura Mamãe e Bebê - A linha Mamãe e Bebê tem mais de quinze anos de existência, e foi criada com o objetivo de reforçar o vínculo entre a mãe e o recém-nascido. A colônia Mamãe e Bebê é, na minha opinião, uma das melhores e mais bem-sucedidas interpretações da idealização do aroma de um bebê.


- Bulgari Petits et Mamans - A marca italiana Bulgari, tal e qual a brasileira Natura propõe a mesma ideologia do vínculo entre mãe e filho através de uma fragrância única. Um toque de camomila e uma nota de mandarina integram-se com maestria ao fundo atalcado. Disponível em eau-de-toilette (com álcool) e eau de senteur (sem álcool).




Versões Adultas



- Talco Delicato, de I Profumi di Firenze - O mais cítrico dos aromas de talco para bebês - é como defino a maravilhosa criação da marca florentina I Profumi di Firenze. Em versão eau-de-parfum e "profumo senza alcool" (sem álcool).


- Teint de Neige, de Lorenzo Villoresi - A mais deliciosa e elegante mistura de talco de bebês e rosas.



- Iris, de L'Erbolario - Excelente alternativa de substituição para o mais caro Teint de Neige. Aroma extremamente similar e poder de fixação divino.





Bebê à Européia




As criações para bebês de certos países europeus parecem fugir a mítica associação de talco e loção Johnson's. Geralmente apostando nos agrumes e na flor de laranjeira, essas declinações são diferentes do nosso conhecido estereótipo, porém não menos atraentes.

- Eau de Bonpoint, de Annick Goutal - Agrumes, flor de laranjeira e petit-grain compõem a criação da maison Goutal, que também é a assinatura olfativa da boutique infantil francesa Bonpoint. Disponível em eau-de-toilette (com álcool) e eau de senteur (sem álcool).


- Petit Ange, de Parfums de Nicolaï - A mandarina é a estrela principal dessa eau de senteur, suavizada pelos acordes florais do lilás e uma leve nota de beijoim. Tudo com o toque de mestre de Patricia de Nicolaï, neta e digna herdeira de Pierre Guerlain.


- Petit Guerlain - Mandarina, laranja e lavanda envolvem a mimosa, a rosa e o jasmim em um fundo de imperceptíveis notas de tonka e baunilha. Uma criação de Olivia Giacobetti para a maison Guerlain, considerada como perfeita iniciação ao universo da marca.




Ilustrações - ao alto - To you and your baby - cartão vintage
Os Mais Verdadeiros ~ primeira à esquerda - Demeter Baby Powder
~ à direita - Natura Mamãe e Bebê colônia
~ segunda à esquerda - Bulgari Petits et Mamans
Versões Adultas ~ primeira à esquerda - Talco Delicato, de I Profumi di Firenze
~ à direita - Teint de Neige, de Lorenzo Villorezi
~ segunda à esquerda - L'Erbolario Iris
Bebê à Européia ~ primeira à esquerda - Eau de Bonpoint, de Annick Goutal
~ à direita - Petit Ange, de Parfums de Nicolaï

~ segunda à esquerda - Petit Guerlain, de Guerlain



18 de maio de 2009

Kenzo Power



Kenzo Power


Neste fim-de-semana, eu finalmente tive a oportunidade de testar o último lançamento masculino de Kenzo. No meio de algumas amostras recebidas após uma compra em perfumaria, lá estava Kenzo Power. Um pouco céptica a princípio, apliquei a fragrância na pele, e devo testemunhar aqui a agradável surpresa.

Kenzo Power é uma criação de Olivier Polge, perfumista responsável por Dior Homme, e segue a linha de masculinidade abordável resgatada por lançamentos como o próprio Dior Homme e o belo Infusion d'Homme, de Daniela Andrier para Prada. Nada de couros, notas amadeiradas extremamente pronunciadas, violência ou drama olfativo, como o nome poderia sugerir. Kenzo Power é um "floral masculino", elegante e tranquilo.

A bergamota é a primeira a chegar temperada por pequenas doses de cardamomo e o coentro. O lótus apresenta-se logo após , impondo uma certa suavidade ao conjunto, que acredito ser reforçado pela presença da mimosa. O jasmim e a freesia entram na partida acentuando o caráter floral, que é dosado por um fundo de bálsamo de tolu, cedro e labdanum. O resultado final lembrou-me uma mistura de Summer by Kenzo e CKBe, um cruzamento entre o toque atalcado e reconfortante e o frescor unissex.

O frasco foi elaborado por um dos maiores designers japoneses, Kenya Hara, diretor artístico de Muji - companhia dedicada a venda de artigos domésticos, e conhecida por seu estilo minimalista. Lembrando as origens nipônicas de Kenzo, o frasco reproduz um vidro de sake.

Após quase três décadas de exacerbação de uma virilidade persistente e invasiva, a afirmação de uma faceta pouco explorada na perfumaria é mais do que revigorante. Kenzo Power joga com o aspecto sensível e intimista, e essa abordagem de masculinidade agrada-me bastante. O conceito de virilidade afirmada, porém não agressiva, condiz com uma nova percepção do homem moderno.

Anaïs Nin disse em "In Favor of the Sensitive Man", que as mulheres parecem não ter feito a separação entre amor e sensualidade como o sexo masculino*. Posso dizer que é satisfatório ver a tentativa de junção entre sentimento e sensualidade traduzido em uma fragrância destinada ao "sexo forte". Mademoiselle Nin ficaria contente!



* Citação - "From my personal observation, I would say that woman has not made the separation between love and sensuality which man has made" - Anaïs Nin

Ilustrações ~à direita - Elizabeth vê Mr. Bingley e Jane juntos. Em Pride & Prejudice, de Jane Austen, Mr. Bingley representa o homem sensível por natureza - fonte: pemberley.com
~ à esquerda - capa de "In Favor of the Sensitive Man and other essays", de Anaïs Nin




11 de maio de 2009

Ana Maria Bahiana


Bate-papo com Ana Maria Bahiana


Ana Maria Bahiana é uma escritora e jornalista especializada na área cultural, com mais de trinta anos de carreira.

Desde o início de seu percurso profissional, como secretária da redação da primeira edição nacional da revista Rolling Stone, passando pela participação nos principais jornais brasileiros, até a remarcável atuação na imprensa internacional, Ana Maria sempre mostrou um enorme talento.

Suas contribuições, tanto na TV como no cinema, foram marcadas por sensibilidade e dedicação. Na TV, foi correspondente internacional em Los Angeles do canal Telecine, da Globosat, e da Rede Globo. No cinema, foi responsável pela produção, roteiro e argumento do longa-metragem “1972”, dirigido por José Emílio Rondeau.

Ana Maria é também a única brasileira membro da Associação de Correspondentes Estrangeiros de Hollywood, responsável pela premiação anual dos Globos de Ouro.

E é com imensa alegria que recebemos aqui no Perfumes & Etc, Ana Maria Bahiana!

Perfumes & Etc - Ana Maria, qual é a sua relação com os perfumes?
Ana Maria Bahiana - Muito intensa. Cheiros são extremamente importantes para mim, são bilhetes amorosos para memórias, emoções, sentimentos.

Perfumes & Etc - Quais as fragrâncias que fizeram história, ou seja, que marcaram momentos de sua vida?
Ana Maria Bahiana - Meu primeiro perfume "de mocinha" foi Je Reviens, da Worth. Hoje, é claro, não suporto.... Depois caí no óleo de sândalo e na colonia Rastro. Tinha uma colonia argentina, Gelatto, que marcou o ano mais feliz da minha vida, 1978, quando estava totalmente apaixonada e gravida do meu filho. Ô, da Lancôme e Calyx, da Prescriptives. marcaram dois períodos muito felizes e repletos de realizações. Tem um perfume da Guerlain, feito exclusivamente para o centenário da casa, que tenho até receio de usar, de tão lindo, repleto de significado - me lembra festa, champanhe, minha mãe jovem , bonita e feliz num vestido de noite, saindo para alguma celebração.

Perfumes & Etc - Quais são os seus perfumes prediletos, no momento?
Ana Maria Bahiana - Estou entre perfumes. Sou muito enjoada para escolher, e vivo ficando viúva de perfumes que adoro e são tirados de linha, como o maravilhoso Luce, da Creative Universe. Minha pele é muito ácida, e não tolera perfumes nem muito florais nem muito cítricos. Quando acho um que minha pele não distorce e que me dá uma onda boa, sou de uma fidelidade felina... até que minha vida mude e peça outro acompanhamento... ou o perfume saia de linha. Em geral tenho um perfume "de dia" e um "de festa". O meu "de dia" agora é baunilha, que sempre dá certo comigo - Vanille da Comptoir Sud Pacifique, Sugar da Fresh ou Vanilla Lace da Victoria's Secret. Para variar, Breu Branco da Natura, que me levanta a energia, ou Banho de Cheiro Águas do Brasil, quando estou sob o domínio de Vênus... Sempre amei Chanel e vou e volto para o numero 5, com passagens pelo Cristalle, Coco, e, agora, Chance. Mas ainda não achei meu novo "perfume de festa"....

Perfumes & Etc - Como você poderia definir uma pessoa bem perfumada?
Ana Maria Bahiana - Como uma linda canção, impalpável mas presente, criadora de memórias.

Perfumes & Etc - Para finalizar, como você vê o circuito nacional de perfumaria?
Ana Maria Bahiana - Gosto muito do que marcas como Natura e Chamma fazem com as ervas, flores e raízes do Brasil, recuperando nossas tradições de banho de cheiro de um modo contemporâneo, moderno.


Ilustração ao alto - Ana Maria Baiana. Ilustração utilizada com a permissão de Ana Maria Bahiana. Reprodução proibida.


7 de maio de 2009

Trouble



Trouble

Autor: Leo Hegg


Trouble foi introduzido em 2004 por Boucheron, uma joalheira francesa de alto luxo, que há mais de 150 anos vem encantando a todos com suas exuberantes criações reproduzindo flores, pássaros e outros animais, característica mantida até hoje em suas coleções.

Em 1988, Boucheron expandiu o seu domínio às fragrâncias, todas com frascos inspirados pelas jóias da marca. Assim vieram Boucheron (1988), lembrando um anel e Boucheron Pour Homme (1991), cujo tema foi a forma retangular dos relógios masculinos. Jaipur (1994) inovou com seu formato de bracelete, e a edição Saphir (1999) rendeu homenagem a safira azul de Kashemir. Por fim, Inital (2000), fazendo apelo às pérolas e Trouble, dedicado ao rubi e as jóias em forma de serpente da maison, além dos lançamentos subseqüentes.

Limão, jasmim das Arábias (sambac), dedaleira (digitalis purpurea), âmbar, cedro azul e baunilha - Dessa composição relativamente simples surgiu um dos perfumes mais bem construídos dos últimos tempos, na minha opinião. Seu frasco evoca a pura sensualidade, em tom vermelho intenso. A tampa em forma de serpente alerta, aí está o verdadeiro elixir da sedução.

O frasco fala pela fragrância antes que a borrifemos. O estilo Art Déco e a cor quente antecipam um perfume de contrastes, mas também de uma profunda simplicidade, característica da escola de artes. A tampa (que, dependendo da edição, é composta por duas serpentes mordendo uma imitação de esmeralda, ou a mesma pedra decorando os olhos de uma única serpente) é a prova máxima da perícia da joalheria, e tal qual um adorno, previne-nos que ali encontra-se algo precioso, único e absolutamente sexy.

E o jus condiz com tudo isso? Ao borrifar Trouble, a primeira coisa que percebemos é o jasmim sambac envolto por um toque seco e amargo de limão, formando um arranjo extremamente energético, e preparando-nos para o festival de sensualidade que virá a seguir. As notas cítricas perdem a forca, permanecendo distantes a permear a fragrância, ora em ondas de calor intenso, ora tímidas. O jasmim reina então como nota central, a partir da qual o perfume é construído. Inebriante e perturbadora com seu cheiro pungente e carnal, a flor deixa uma sillage envolvente.

O fundo é o palco aonde Trouble encena suas artes, a cama, destino final dos amantes. Aqui o âmbar, o cedro azul e um aveludado e discreto toque de baunilha, envolvem o jasmim tal qual um tecido de cachemire envolve a pele.

Inegavelmente simples, mas nem por isso menos intoxicante e perigoso, Trouble é capaz de deixar lembranças eternamente gravadas na memória de quem deixar-se envolver por seu aroma único e sedutor. Usufrua com moderação.


Ilustrações ~ à direita - The Nude Snake Charmer, de Paul Trouillebert (1829-1900) - pintor da escola de Barbizon (école de Barbizon)
~ à esquerda - vista da boutique Boucheron - Place Vendôme, Paris, França



6 de maio de 2009

Fleurs de Bois

Fleurs de Bois


Fleurs de Bois é o mais novo lançamento de Miller Harris, que foi inspirado pelas caminhadas periódicas da criadora, Lyn Harris, no Regent's Park, em Londres. A idéia foi criar uma fragrância que celebrasse a primavera inglesa, associando o aspecto herbáceo e verde às flores e um toque amadeirado, que completa o quadro bucólico.

A abertura é marcada pela simbiose entre notas de limão e grama verde. Em poucos minutos, a tangerina entra, seguida quase imediatamente pelo vetiver. O jasmim, a rosa e a íris aparecem em pouco tempo, impondo uma certa suavidade e amenizando a abertura herbácea. O alecrim e as folhas de vidoeiro dão uma certa aura de bosque encantado, que é reforçada pela base de sândalo, patchuli e oakmoss.

Fleurs de Bois realmente lembra-me um passeio pelo parque. Grama, folhas, flores e madeira - tudo serve para compor o cenário de um dia despreocupado de primavera em um jardim inglês. Achei cada etapa de evolução extremamente interessante, formando uma fragrância que une descontração a um toque de elegância British.

Fleurs de Bois é uma eau-de-parfum leve e extremamente versátil, sendo indicada para as mais diversas ocasiões e climas. Apesar da abertura verde e fresca torná-la ideal para os dias mais quentes, as notas amadeiradas ao fundo dão uma sensação de aconchego, o que faz da nova criação de Miss Harris uma escolha perfeita para os primeiros dias de outono no Hemisfério Sul. O efeito sillage é moderado e o poder de fixação foi satisfatório na minha pele, permanecendo por 5 horas.

Para os adeptos das misturas de fragrâncias, Lyn Harris sugere a combinação entre Fleurs de Bois e o óleo Sage Dalmatian, a fim de contrabalançar o caráter amadeirado, bem como os produtos para o corpo da linha Terre de Bois, em especial a loção corporal.

Elizabeth Bowen disse em seu ensaio "London - 1940" que sempre colocou Regent's Park entre os cenários mais civilizados do planeta*. Um belo apelo ao uso do que, ao meu ver, é a representação olfativa do local.



*Citação - "I had always placed this park among the most civilized scenes on earth" - Elizabeth Bowen

Ilustrações ~ à direita - Regent's Park - pintura de Camille Pissarro (1892)
~ à esquerda - Queen Mary's rose garden, Regent's Park - Beatrice Emma Parsons





4 de maio de 2009

Infusion de Fleur d'Oranger


Infusion de Fleur d'Oranger


Infusion de Fleur d'Oranger é a primeira eau-de-parfum da "Ephemeral Infusion Collection" - uma família de composições em edição limitada, lançada pela maison Prada.

Infusion d'Iris e Infusion d'Homme são duas fragrâncias que tenho usado constantemente, de forma que estava mais do que curiosa em testar Infusion de Fleur d'Oranger, desenvolvida pelo mesmo nez criador dos dois precedentes, Daniela Andrier.

Apesar de ter em conta que eu não sou uma ardente admiradora de flores-de-laranjeira, além de não estar entusiasmada pela idéia de vir a apaixonar-me por um perfume que tem seu tempo de vida cronometrado, lá fui eu testar o lançamento de Prada para o período de primavera-verão 2009, no Hemisfério Norte.

Composta por apenas um trio de notas, Infusion de Fleur d'Oranger surpreendeu-me, parecendo muito mais elaborada. A abertura é flor-de-laranjeira em estado bruto, a qual acrescenta-se um toque cítrico minutos depois, que poderia jurar ser mandarina. O jasmim chega pouco mais tarde, acompanhado pela tuberosa, que aqui perde sua voluptuosidade e exuberância, adequando-se ao caráter suave da estrela principal, a flor-de-laranjeira. Após um desenvolvimento de 10 minutos, a fragrância torna-se linear, não havendo maiores alterações olfativas.

Eu já ouvi diversos comentários relacionando Infusion de Fleur d'Oranger a um poder de fixação medíocre, porém essa não foi a minha experiência. A fragrância desenvolveu-se bem na minha pele, permanecendo por 4 horas, o que considero razoável, mas nada excepcional, visto que falamos de uma eau-de-parfum.

Como disse anteriormente, eu não sou uma aficionada por flores-de-laranjeira, de forma que secretamente ansiava por uma interpretação alterada da flor. Ponto positivo para Infusion de Fleur d'Oranger nesse quesito. Caso esteja procurando por uma versão mais verdadeira da flor-de-laranjeira, essa definitivamente não é a fragrância que indicaria. Entretanto, não posso negar que senti-me atraída pela leveza e suavidade de Infusion de Fleur d'Oranger, que imprime uma certa aura de limpeza e um aroma final que em inglês definimos de "soapy" (assabonetado). Também gostei de ver a tuberosa, flor poderosa, curvar-se a singeleza da flor-de-laranjeira e do jasmim. Enfim, apreciei Infusion de Fleur d'Oranger, mas não a ponto de apressadamente adquirir um frasco, ou desfazer-me em prantos quando a fragrância for descontinuada.


Infusion de Fleur d'Oranger é declinada em eau-de-parfum 50, 100 e 200ml, gel para ducha e loção corporal



Ilustrações ~ ao alto - Infusion de Fleur d'Oranger eau-de-parfum
~ à direita - cover de "When it's Orange Blossom Time in Loveland", canção de Arthur Lange, interpretada por Jeff Branen (1915) - publicada por Joe Morris Music Co.
~ à esquerda - Orange Blossom (Citrus sinensis Osbeck), pintura de Mary E. Eaton




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