24 de julho de 2009

1876 - Mata Hari

1876 - Mata Hari


Histoires de Parfums é uma marca que tem como conceito básico a elaboração de fragrâncias inspiradas em figuras históricas. 1876, cujo nome evoca o ano de nascimento da legendária Mata-Hari, poderia servir de biografia olfativa a notória dançarina. Sendo assim, antes de analisarmos o perfume, entraremos no mundo de uma das mulheres mais polêmicas do século XX.

O personagem - Margaretha Geertruida Zelle nasceu no dia 7 de agosto de 1876, filha do próspero comerciante de chapéus Adam Zelle, e de sua esposa Antje van der Meulen, em Leeuwarden, Holanda.

Depois de anos de fartura, Adam Zele conheceu tempos difíceis, vindo a declarar falência em 1889, e abandonando a família pouco depois. Margaretha, sua mãe e seus irmãos viram-se forçados a morar em um pequeno apartamento. Em maio de 1890, Antje falece e seus filhos separam-se.

Após uma breve passagem por uma escola normal, de onde foi expulsa por ter sido o objeto dos amores do diretor, Margaretha muda-se para the Hague. Um anúncio publicado em um periódico local chama sua atenção. As poucas linhas escritas solicitavam candidatas ao posto de esposa de um oficial das forças armadas holandesas nas Índias Orientais, Rudolph MacLeod. Margaretha, 19 anos, e Rudolph (também conhecido como John), 20 anos mais velho, encontram-se em março de 1895, e casam-se seis meses mais tarde. Em janeiro de 1897, nasce o primeiro filho de ambos, Norman-John, e em maio, a família muda-se para Java. Em 2 de maio de 1898, Jeanne Louise vem ao mundo, sendo logo apelidada de Non (abreviação da palavra malaia "nonna", que significa "menininha").

O casamento foi tumultuoso, marcado pelo temperamento difícil de Rudolph, e pelo falecimento do pequeno Norman-John, de pouco mais de dois anos, vítima de envenenamento por parte de um dos empregados. Rudolph, dilacerado pela dor, acusava freqüentemente Margaretha de desatenção, incutindo a culpa pela morte do primogênito. A situação torna-se intolerável, e em agosto de 1902, pouco depois do retorno a Holanda, Margaretha pede o divórcio, obtendo a guarda de Non, e uma pensão mensal. Contudo, Rudolph nunca cumpriu com suas obrigações financeiras, e, aproveitando uma das visitas da filha, separou-a de Margaretha. Mãe e filha viram-se somente uma vez a mais, na estação ferroviária de Arnhem, em 1905.

Aos 26 anos, sem família, sem dinheiro e isolada socialmente, Margaretha decide mudar-se para Paris. Trabalhando como modelo artístico, e estudando dança, o esboço de uma nova personalidade começa a ser traçado. No dia 13 de março de 1905, no Museu Guimet, Margaretha apresenta-se como dançarina indiana, adotando um nome de cena malaio, traduzido literalmente como "olho do dia", mas significando "sol". Nasce Mata-Hari.

Mata-Hari conheceu grande sucesso na Paris da época, chegando mesmo a brilhar no teatro Olympia. A popularidade crescente proporcionou um outro nível de vida, e diferentes relações amorosas, como Arich Kiepert, em 1906, rico proprietário de imóveis em Berlin, ou o banqueiro conhecido como Rousseau, que instalou-a no Chatêau de la Dorée.

O início da década de 1910 conheceu o apogeu de Mata-Hari, que, em 1914, viaja para Berlin a fim de apresentar-se no teatro Metropol, e encontrar-se com seu antigo amante, Kiepert. Estoura a primeira Guerra Mundial.

Em 1916, Margaretha retorna a Paris e apaixona-se pelo capitão russo Vadime de Massloff, aceitando a proposta do mesmo de espionar para a França. No dia 13 de fevereiro de 1917, Margaretha é capturada no Elysées Palace Hotel, sendo levada para a prisão Saint Lazare, sob acusação de dupla espionagem. Na fria segunda-feira de 15 de outubro de 1917, Margaretha Zelle foi fuzilada, e o mito Mata-Hari entrou para a posteridade.

O perfume - Dentre todas as flores, acredito que a rosa é a mais perfeita para simbolizar Margaretha Zelle. E é justamente em torno da rosa que desenvolve-se 1876. Cada etapa de evolução do perfume parece lembrar um período da vida de Margaretha.

A abertura conjuga força e singeleza com a bergamota, a mandarina e uma tímida nota de lichi sugerindo o frescor da juventude daquela que procurou no casamento segurança e estabilidade. Ao viço inicial, junta-se um certo romantismo, com a entrada em cena da rosa. Porém, a luminosidade juvenil dura pouco, e a uma nota de cominho e canela une-se a rosa, insinuando o exotismo da vida em Java. As cores e temperos da ilha estão aqui representados.

O caráter exaltado da associação entre rosas e especiarias é logo apaziguado pelo requinte da violeta, da iris e do cravo. Exotismo e elegância - Margaretha transforma-se em Mata-Hari.

A violeta faz-se cada vez mais presente, enquanto o cominho perde o poder. A fase final é uma bela simbiose entre rosas e violetas em um fundo de vetiver, sândalo e madeira guaiac. As especiarias ainda estão presentes, mas distantes, ao fundo. Essa grande finale é a minha etapa predileta, onde a extravagância do cominho e da canela é finalmente vencida pela sofisticação da violeta. Uma harmonia que poderia ser traduzida pelo cenário Art-Nouveau do antigo Elysées Palace Hotel, a bela construção de Georges Chedanne (103, avenue des Champs-Elysées) que serviu de última residência a Margaretha Zelle.

A linguagem olfativa da rosa é definida pela dualidade entre força e delicadeza. Uma elegância contida, que nunca se revela completamente, como Margaretha Zelle... E como Mata-Hari.



Ilustrações ~primeira à direita - casamento de Margaretha Zelle e Rudolph MacLeod (Griet e John), em 11 de julho de 1895 - Amsterdan (Coleção Mata-Hari, Fries Museum Leeuwarden)
~ primeira à esquerda - Mata-Hari, Paris - 1905
~ segunda à direita - Mata-Hari no Les Folies Bergère, em 28 de junho de 1913
~ segunda à esquerda - 1876, de Histoires de Parfums - fonte: Histoires de Parfums
~ terceira à direita - 103, Avenue des Champs-Elysées, antiga localização do Elysées Palace Hotel. O prédio, construção de Georges Chedanne, serve atualmente de endereço para o banco HSBC.




15 de julho de 2009

Histoires de Parfums


Histoires de Parfums


Gérald Ghislain nasceu no sul da França e foi criado no Marrocos, absorvendo todo o exotismo e riqueza aromática do local.

Aos 13 anos, Gérald voltou ao seu país natal, debutando como aprendiz e imergindo no mundo da restauração.

Passados vários anos, esse apaixonado por artes e literatura mudou-se para Paris, trabalhando nos mais badalados restaurantes. E foi na romântica Paris que Gérald encontrou uma estudante de moda muito especial, Gene. Seguindo a impetuosidade dos vinte anos, ambos decidiram casar-se.

Em dois anos de união, a dupla abre o primeiro restaurante, "Le Chant des Voyelles", dedicado a culinária francesa. O sucesso do primeiro restaurante foi seguido pela inauguração do segundo, "Les Piétons", localizado na mesma rua. Os dois estabelecimentos contavam com a assinatura de Gene no design e na decoração.

Porém, Gérald e Gene procuravam uma atividade aonde a criatividade e senso artístico de cada um pudessem ser direcionados, e as tradições francesas honradas e respeitadas.

Gérald dedica-se então ao estudo da perfumaria, ingressando no famoso ISIPCA (Superior International Institute of Perfumes, Cosmetics and Food Flavor), em Versailles.

Em 2000, o sonho de Gérald e Gene realiza-se finalmente. Nasce Histoires de Parfums - uma marca na qual a intuição e a criatividade primam, independente de tendências de mercado.

Sucede-se o lançamento de uma linha de 7 perfumes, tendo como tema personagens reais, cuja história e traços de personalidade são descritos pela narrativa olfativa. De Eugénie de Montijo, passando por Colette, Jules Verne, Marquês de Sade e Mata-Hari, somente para citar alguns, cada figura mítica inspira uma fragrância, e tem sua trajetória desvendada por notas.

Além dos personagens principais, a linha dispõe dos soliloquies Noir Patchouli, Blanc Violette e Vert Pivoine, bem como os "cult books" 1969 e Ambre 114, um tributo aos 114 elementos que intensificam o aroma do ambre. Na coleção Soliloquies, as notas predominantes são representadas por cores. O negro procura traduzir o patchuli, enquanto o frescor da peônia é relevado pela cor verde, e o branco, remanescente do pó facial, lembra a violeta.

O feitio dos frascos, elaborados por Magali Sénéquier, evoca a forma de livros, afirmando o conceito e convidando a um mergulho na trama, onde o aroma fala mais do que palavras.



Ilustrações - Coleção de Histoires de Parfums



9 de julho de 2009

Hypnose Senses


Hypnôse Senses


Eu tive, enfim, a oportunidade de testar o novo bebê Lancôme, Hypnôse Senses - variação de um dos top-sellers da marca, Hypnôse. Não escondo a minha surpresa ao constatar que Lancôme foi capaz de produzir uma das mais agradáveis fragrâncias dos últimos meses.

Ao contrário de seu irmão mais velho, Hypnôse Senses prima pela suavidade e discrição. Nada do exotismo de notas de maracujá na abertura, nem da baunilha avançando bravamente. Para apreciar Hypnôse Senses, deve-se evitar comparações com Hypnôse.

A abertura de Senses evoca conforto. A mistura do almíscar com um levíssimo toque ambarado, temperado por uma tímida nota de pimenta rosa traz a mente imagens de peças de seda. A delicadeza e elegância do tecido poderiam muito bem traduzir os primeiros estágios da fragrância.

A união entre o osmanthus e a mandarina compõe um acorde frutal, que sugere uma vaga familiaridade com a versão original, Hypnôse. Essa faceta frutal, juntando-se a abertura almiscarada, e a uma ponta de mel e rosas, criam um floral cremoso, de uma doçura controlada. Depois dessa fase, Senses parece voltar ao primeiro estágio, caracterizado por uma aura de aconchego. O benjoim e o patchuli são figuras comedidas, sendo a presença do último, dificilmente notada. Um ligeiro registro atalcado, devido provalmente a presença do cumaru (fava tonka), faz-se sentir ao fundo.

Eu já escutei comentários sobre uma possível similaridade com Coco Mademoiselle, de Chanel, e devo dizer que não vejo nenhum traço comum. Ok, ambas contam com o patchuli Indonésio entre as notas de base. Entretanto, o patchuli tem um caráter vivo, doce e proeminente em Coco Mademoiselle, enquanto em Senses é a pena discernível. Coco Mademoiselle e Hypnôse Senses são, a meu ver, duas fragrâncias completamente distintas.

O frasco foi inspirado na criação de Georges Delhomme para o perfume Magie, um clássico dos anos 50.

Criada por três perfumistas, Christine Nagel (Délices de Cartier), Ursula Wandel (B, de Boucheron) e Nathalie Feisthauer (Blonde, de Versace), essa eau-de-toilette imerge de um universo feminino, onde uma certa ternura intimista reina. A personalidade jovial da gentil Beth March, do romance Little Women, de Louisa May Alcott, reproduz-se nos eflúvios de Senses. Beth era dotada de uma alegria serena e tranquila, tal como o efeito final de Hypnôse Senses.

Anunciado como um floral-chypré, Senses foge a regra de poder olfativo que o qualificativo "chypre" confere. O efeito sillage é mínimo, e a fragrância permanece perto do corpo, como uma segunda pele. Se eu tivesse que resumir Senses em poucas palavras, diria: um leve floral almiscarado cremoso, com uma meiga faceta frutal - uma fragrância bem confeccionada, cujo único defeito foi o fraco poder de fixação, na minha pele.

Envolvente, suave e reconfortante, a nova criação de Lancôme baseia-se no conceito de singeleza e elegância contida, tendo as qualidades necessárias para cativar uma audiência jovem.


Ilustrações ~ à direita - Little Women - Meg, Jo, Beth e Amy
~ à esquerda - capa do livro Little Women, de Louisa May Alcott, coleção Signet Classics




3 de julho de 2009

Claudia Alencar


Bate-papo com Claudia Alencar


Claudia Alencar é na minha opinião, uma das figuras mais versáteis da dramaturgia brasileira. Atriz, poetisa, artista plástica, professora e escritora, essa paulista tem-nos encantado com seu talento desde a sua estréia na TV, em 1976 na novela "Canção para Isabel", divulgada pela extinta TV Tupi.

Com passagens pela Bandeirantes e SBT, foi na Globo que Claudia viveu a maior parte dos seus mais de 30 anos de carreira. Destacando-se em novelas como: "Roda de Fogo", "Fera Ferida", "Porto dos Milagres", além das minisséries "Hilda Furacão" e "O Quinto dos Infernos", essa maravilhosa atriz brilhou em cada uma de suas contribuições a emissora.

Em 2000, Claudia publicou seu segundo livro de poesias, "Sutil Felicidade", com 22 aquarelas de sua autoria. "Sutil Felicidade" é "fruto de um longo processo de meditação e busca do autoconhecimento", como ela diz. São poemas reveladores de uma significativa mudança em relação a seu livro de poemas anterior, Maga Néon, de 1988.

Em 2003, nossa artista multifacetada lançou sua coleção de jóias “A Poesia é de Ouro”, em parceria com a joalheira Lea Nigri. As peças representam seus poemas, traduzidos em forma de braceletes, colares, brincos e anéis, trabalhados em ouro branco, amarelo e pedras preciosas.

Sempre buscando a excelência do seu Ser, além do reconhecimento artístico, social e econômico, Claudia faz trabalhos solidários com arte em comunidades carentes, e participa de ações para ajudar o combate da Hanseníase no Brasil.

Ultimamente, todo o talento de Claudia Alencar pôde ser conferido em suas participações nas novelas "Prova de Amor", "Alta Estação" e "Os Mutantes", da Rede Record. Contabilizando mais de 26 novelas e minisséries, 23 peças de teatro e nove filmes, Claudia promete deleitar-nos com a sua arte por muitos anos a seguir.


Perfumes & Etc - Claudia, qual é a sua relação com os perfumes?
Claudia Alencar - O cheiro é uma das mais fortes sensações humanas, e nos remete a imagens inconscientes muito fortes. Estar cercada de bons odores, poder de repente andar na rua e sentir o perfume da dama da noite, é um dos nossos encontros com o Paraíso. Ir dormir com uma fragrância leve que remete ao bebê que fomos, ao bebê que já tivemos, é um sonífero potente. E ter um perfume próprio, quase único... Não é de meu feitio guardar segredos sobre a arte, saúde, beleza, cultura, técnicas, soluções, etc, mas não conto para ninguém qual é o meu perfume. Acho o cheiro uma das coisas mais pessoais do ser humano. Uso um perfume que há 10 anos encontrei e, que por não ser internacional e não ter uma veiculação nacional forte, é praticamente desconhecido, porém de uma delícia inigualável, que combina com minha personalidade : nem doce, nem cítrico, mas instigante. E às vezes misturo-o com alguma essência. Gosto de misturar perfumes. Why not ?


Perfumes & Etc - Quais as fragrâncias que fizeram história, ou seja, que marcaram momentos de sua vida?
Claudia Alencar - Atkinsons era o perfume de meu pai, que se encharcava com ele antes de ir trabalhar ou sair à noite com mamãe. Sinto tanto que não tenha mais, para que eu possa viajar num átimo para a minha infância...*
Anais Anais, com seu aroma quente e doce, foi meu companheiro por muitas noites de arte e amor, na década de 80.
L'Eau d'Issey, de Issey Miyake, acompanhou-me na década de 90. Aquele perfume aéreo, mas forte, deixava-me alegre. No entanto, depois que ele foi mais divulgado, eu o cheirava em outras pessoas e parei de usar. Caraca! Hoje em dia falo por décadas - rsrsrs. Lembro-me bem de quando tinha 13 anos - queria ser mais velha, para ter amigas de 10, 15 anos, como mamãe... Mas eu não tinha idade pra isso - kkkkk.
O Giovanna Baby também foi um dos meu grandes amores. Tão delicado, tão suave, me deixava assim... Como ele era. Eu ainda o compro esporadicamente, para colocar antes de dormir. Marilyn Monroe usava o Chanel n°5 para sentir-se mulher, mas eu adoro colocar cheiro de bebê para relembrar a minha total entrega ao mundo na hora de dormir.
J’Adore, com seu fogo, ajudava a sentir-me sensual. Eu comprei-o assim que foi lançado e adotei. Depois todos começaram a usa-lo. Porém, ninguém ainda descobriu o meu perfume atual. Eu presenteio minhas amigas que moram no exterior com ele. Compro muitos frascos e mando para elas. Faz um sucesso incrível, mas aqui no Brasil ainda me permito esse pequeno egoísmo.
Ah, e sempre Annick Goutal! Meu Deus, cada um é mais maravilhoso que o outro! Mas são muito caros! Eu gostaria de comprá-los com mais frequência, mas o preço quase proibitivo restringe as consumidoras.


Perfumes & Etc - Existe alguma relação entre as suas personagens e as fragrâncias que costuma usar? Fale-nos um pouco da relação personagem-perfume.
Claudia Alencar - Escolho perfumes para as minhas personagens sempre. Pobres ou ricas, engraçadas ou dramáticas, elas costumam ter um cheiro particular que as definem. Aí pesquiso muito, porque tem que ser um perfume que meus companheiros de cena gostem, pois sempre estamos "in love" com eles.

Perfumes & Etc - Como você poderia definir uma pessoa bem perfumada?
Claudia Alencar - Uma pessoa pura, limpa, tentadora, gostosa de se ter por perto. Alguém que acalenta por demais nossa existência, que nos diz que a vida é sonho, citando Calderón de la Barca.

Perfumes & Etc - Para finalizar, como você vê o futuro do circuito nacional de perfumaria - tanto em termos literários (blogs, livros), quanto no setor industrial?
Claudia Alencar - Vejo o mais radiante possível! Temos uma floresta, frutos, flores inigualáveis. Profissionais cada vez mais capacitados e uma criatividade que não se inibe com regras estabelecidas. Já temos grandes marcas que estão se expandindo no exterior e obtendo mais crédito dentro do país, acabando com o tabu que só «os perfumes estrangeiros são os melhores e tem melhor fixação». Veja por mim - Adoro um perfume nacional, que «exporto» para as minhas amigas que nunca sentiram uma fragrância igual, e o custo benefício é esplêndido! Uso de noite e de dia, sentindo-me única, porque ele consegue expressar parte da minha personalidade.



Sugestão de Leitura:

Sutil Felicidade
Autora: Claudia Alencar
Editora: Globo


*Nota - Após alguma pesquisa, redescobrimos o perfume do pai da Claudia, devidamente reformulado e em nova embalagem. A fragrância chama-se English Lavender, e é um dos clássicos de Atkinsons.


Clique nos links e relembre - Cenas de novelas, Entrevista com Jo Soares (primeira parte)



Ilustrações - Todas as ilustrações foram utilizadas com a autorização de Claudia Alencar. Reprodução proibida.



30 de junho de 2009

Que perfume uso e que mulher eu atraio


Que perfume uso e que mulher eu atraio


Seguindo o sucesso da matéria "Que Perfume Uso e que Homem Eu Atraio", de 12 de fevereiro de 2009 (clique no nome para lê-la), e respondendo a diversos pedidos para uma versão dirigida ao público masculino, resolvi publicar "Que Perfume Uso e que Mulher Eu Atraio", o que é, obviamente, uma brincadeira.

Não, Demi Moore não cairá de amores caso você comece a banhar-se freneticamente em Arpège pour Homme, e Sienna Miller não ficará irresistivelmente atraída por seu Paul Smith Extreme. Porém, é divertido conhecer a fragrância usada pela outra parte do casal, não acha? Sendo assim, continuando no espírito "fun", e deixando a seriedade de lado, tentaremos descobrir que fragrância a contraparte masculina de cada uma das ladies abaixo prefere.


- A Versátil- Catherine Zeta-Jones é uma artista multifacetada. Essa bela atriz galesa canta, dança e sapateia magnificamente. Catherine é também famosa por sua união com o sexagenário ator americano Michael Douglas. Para quem não se lembra, Michael foi o macho que esnobou Glenn Close em Fatal Attraction, e resistiu bravamente a Demi Moore em Disclosure. Um homem assim deve preferir fragrâncias fortes e marcantes, certo? Errado! Ao que tudo indica, Michael parece ter uma predileção por... Petite Chérie, de Annick Goutal. Não em Catherine, Petite Chérie para uso próprio, darling!

- A First Lady - Jacqueline Kennedy sempre viveu cercada de homens fortes. Começando por seu pai, o boêmio Black Jack Bouvier, passando pelo eterno presidente democrata John Fitzgerald Kennedy, e chegando ao milionário grego Aristoteles Onassis. Entretanto, foi a Jackie da época Kennedy que marcou o imaginário popular. Durante os anos Camelot, o aroma de Vetiver, de Guerlain, supostamente a fragrância predileta de John, acompanhou a primeira-dama mais popular dos Estados Unidos.

- A Conselheira - Demi Moore fez furor ao unir-se a Ashton Kutcher, quinze anos mais novo, abrindo caminho para várias mulheres (Thank you, Demi!). Na época do casamento, Ashton declarou a revista People que costumava falar sobre tudo com sua esposa*, a qual parece ter grande influência em suas decisões. O marido de Demi, tão propenso ao diálogo, usa Arpège pour Homme, de Lanvin.

- A Top Model - O que poderia unir uma das maiores top models brasileiras e uma beleza escultural "made in Israel"? Victoria's Secret, você diria. Certo, pela metade. Gisele Bündchen e Bar Refaeli dividiram algo mais do que o brilho da celebre marca americana. Ambas reinaram, em épocas diferentes, no coração de Monsieur Titanic himself, Leonardo de Caprio. Seja impedindo que sua dama afunde com o navio, ou voando bravamente em Aviator, Di Caprio perfuma-se com Eau d'Hadrien, de Annick Goutal.

- A Bohemian-Chic - Sienna Miller teve seu estilo copiado, e seu ex-namorado cobiçado por boa parte das mulheres em torno do globo. Grande apaixonada por fragrâncias, diz a lenda que Sienna ofereceu ao namorado da época, Jude Law, um frasco de Obsession Night. Jude é igualmente conhecido por usar Paul Smith Extreme, além dos seus fiascos amorosos. Ops!

- A Princesa por Excelência - Grace Kelly é ainda sinônimo de classe. Como esquecer suas atuações em filmes como High Society e Mogambo? Grace foi também princesa de Mônaco, e imprimiu sua marca no pequeno rochedo. Seu príncipe, Rainier Grimaldi, na segunda parte de sua vida, usou Habit Rouge, de Guerlain. Porém, Habit Rouge não é o suficiente para atrair uma princesa, senhores. O dedicado Rainier além de ter solicitado a Creed a confecção de uma fragrância a ser oferecida a Grace no dia do casamento (o elegante Fleurissimo), presenteou-a com um yatch. Et ça c'est la classe!

- A Rebelde - Angelina Jolie era L'enfant terrible de Hollywood, e costumava mesmo carregar o sangue de seu ex, Billy Bob Thornton, dentro de um recipiente em forma de pingente. Depois de encontrar Brad Pitt, que usa Musk, de Lorenzo Villoresi, Miss Jolie parece ter-se aquietado, transformando-se em ativista ainda mais atuante, e mãe de família numerosa.




*Citação - "We talk about everything. It's amazing." - Ashton Kutcher

Ilustrações ~ ao alto - Cupid, vintage postcard ~ Fotos - Catherine Zeta-Jones - Carlo Allegri /Getty images, Jacqueline Kennedy - Britannica, Demi Moore - The Insider, Bar/Gisele - files.clubplanet.com, Sienna Miller - freerepublic.com, Grace Kelly - Freewebs, Angelina Jolie - hecklerspray




29 de junho de 2009

Crescent Row


Crescent Row


Benefit é uma marca americana conhecida por aliar cosméticos de excelente qualidade, bom humor e um colorido visual retrô. Criada em 1976 pelas gêmeas Jean e Jane Ford, a pequena boutique de São Francisco prosperou, e conta atualmente com diversas lojas espalhadas pelo mundo, além de inúmeros pontos de venda. Resolvendo aumentar seu leque de fragrâncias, onde já consta o top-seller Maybe Baby, Benefit Cosmetics lança em julho a coleção Crescent Row.

O conceito de Crescent Row foi inspirado por uma viagem a Bath, na Inglaterra, feita por Annie e Maggie, filhas de Jean. A passagem pelo magnífico Royal Crescent encantou as meninas, e levou as fundadoras da marca a desenvolver a idéia de três personagens imaginárias que seriam vizinhas no famoso conjunto em forma de semicírculo, composto de 30 construções em belíssima arquitetura Georgiana.

Cada uma das meninas tem sua personalidade distinta, que reflete-se em seu apartamento, e, claro, em sua fragrância.

LeeLee é meiga, etérea e bem-humorada, uma comportada moça de "boa família", enfim, o tipo que os rapazes anseiam em apresentar aos pais. "Laugh With Me LeeLee" é um floral-amadeirado com abertura de cassis, melão e limão, corpo de violetas negras, jasmim e lírios e fundo de âmbar e sândalo.

Sofia é boêmia e culta - o espírito livre do grupo. Visitou Sumatra, adora os poemas de Baudelaire, e tem uma residência secundária em Notting Hill. "Something about Sofia" é um floral-oriental mais complexo, com abertura de manga e frésia, corpo de jasmim sambac e pétalas de peônia, e fundo de almíscar, caramelo branco e baunilha.

Gina é provocante, sedutora, charmosa - o pesadelo de qualquer sogra, e o sonho de todos os homens. Gina gosta de festas, cocktais elaborados, happy-hours em boa companhia. Sua fragrância, "My Place or Yours Gina", é um oriental-amadeirado com abertura de pimenta rosa, bergamota e tangerina, corpo de peônia, framboesa selvagem e lírios, em um fundo de patchuli, tonka e baunilha.

Eu não pude deixar de associar as três personagens a uma versão British de Sex & the City. Esqueça New York, coloque Bath como pano de fundo, e LeeLee seria a contraparte de Charlotte, enquanto Sofia encarnaria um meio-termo entre Miranda e Carrie Bradshaw, e Gina lembraria uma versão polida de Samantha Jones. Um quizz (clique na palavra) para descobrir a personalidade mais condizente com cada consumidora está disponível no website de Benefit.

As fragrâncias foram elaboradas por François Demachy, e os frascos evocam cocktail-shakers antigos. Cada embalagem representa um apartamento, decorado de acordo com as qualidades próprias de sua habitante. O de LeeLee, em tons azuis, traz um caprichado jardim, o de Sofia tem cores quentes e peças étnicas e o de Gina é sofisticado e envolvente, com uma garrafa de champagne à vista, na penteadeira. Escolha o seu personagem, e divirta-se!



Jane Austen viveu em Bath entre 1801 e 1805, ano da morte de seu pai, o reverendo George Austen.
Em 2007, a versão televisiva de Persuasion teve cenas filmadas no Royal Crescent, aonde a família Elliot supostamente habitou.
Para imergir no clima da época, uma visita ao site Jane Austen em Português é obrigatória.


Sugestão de Leitura:

Jane Austen in Bath: Walking Tours of the Writer's City
Autora: Katherine Reeve
Editora: The Little Bookroom



Ilustrações ~ ao alto - Coleção Crescent Row (e amostra do interior das embalagens)
~ primeira à direita - Laugh With Me LeeLee
~ à esquerda - Something About Sofia
~ segunda à direita - My Place or Yours Gina






22 de junho de 2009

Simone Shitrit




Bate-papo com Simone Shitrit


Quando criei a coluna "Perfumes & Etc entrevista Gente Criativa" tive uma musa inspiradora, com a qual desejava inaugurar o espaço. Quando falo "Gente Criativa", não posso deixar de pensar na minha amiga Simone Shitrit. Por causa de nossas respectivas agendas tumultuadas e horários diferenciados, não pudemos dar vazão ao nosso projeto inicial. Porém, nunca deixei de associar o termo "Gente Criativa" a Simone.

Profissional de sucesso na área jurídica corporativa e financeira, Simone Shitrit sempre nutriu uma paixão pelas fragrâncias. E foi a carreira de advocacia que possibilitou-lhe um contato com o mundo dos cosméticos. Não podendo ignorar o fato de que a realização plena só seria possível pela união entre trabalho e paixão, Simone desligou-se do mundo jurídico e começou a estudar aromaterapia e aromacologia, trabalhando posteriormente como consultora em um dos mais badalados Spas de São Paulo. No entanto, a necessidade de escrever e desenvolver projetos ligados aos perfumes era latente, sendo a razão de um novo direcionamento profissional.

Simone trabalha atualmente no ramo da perfumaria, acumulando as funções de consultora, diretora executiva do Centro para Difusão do Conhecimento do Perfume, crítica na revista online Perfume Critic, além de brilhar como editora e autora do blog Mais Que Perfume, um dos espaços pioneiros a abordar o assunto na blogosfera brasileira. Porém, Mais Que Perfume, como diz o nome, não se restringe somente a análise olfativa, estendendo-se a temas como design, moda e cultura geral, de forma envolvente e original.

Finalmente, surgiu a oportunidade para publicar a entrevista com essa figura notável. E eu não posso conter a alegria em trazer ao Perfumes & Etc minha amiga, Simone Shitrit.


Perfumes & Etc - Simone, como surgiu a idéia do Mais Que Perfume?
Simone Shitrit - A idéia do blog surgiu quando eu estava elaborando o site +Q Perfume. Eu queria ter um site com todas as informações sobre perfumes, perfumistas, perfumaria e o senso do olfato. Quanto mais eu pesquisava para criar o site, mais eu percebia que não existia material em português suficiente para pesquisa. Resolvi então fazer um blog em português para que pessoas como eu pudessem ler sobre o assunto. Com o tempo também percebi que o Brasil é grande produtor de fragrâncias, grande consumidor de perfumes, mas muito tímido para falar do assunto. Coloquei como objetivo para o blog, ser um espaço aberto onde as pessoas poderiam falar do assunto, dar opiniões e se informar do que está acontecendo no mercado. Como eu recebi apoio da Fragrance Foundation e do Sense of Smell Institute e percebi que muitos estrangeiros também queriam participar, tornei o blog bilingue (português e inglês). O projeto então foi crescendo, tomando novos rumos, visitando novas marcas. Felizmente não estou sozinha. Desde que começei a escrever no meu blog, descobri que existem mais brasileiros que dividem essa paixão pelas fragrâncias.


Perfumes & Etc - Acho o teu espaço realmente inovador, tanto pela estrutura dos textos, como pela comunicação visual. Qual a marca de estilo que você pretende imprimir?
Simone Shitrit - Acho que a minha pessoal. Sempre amei design, artes e o dinamismo das coisas. O blog reflete muito o meu jeito pessoal de ser e os meus interesses. Procuro escrever sobre coisas que eu gosto, que me fascinam, que me intrigam. Não gosto de fazer críticas negativas ou falar mal do trabalho dos outros. Primeiro porque não acredito neste tipo de energia e segundo por que acho que os meus leitores tem toda condição de criar uma visão crítica pessoal e conseguir perceber o que há de bom e o que existe de ruim no mercado. Tento intercalar matérias elaboradas e mais extensas com bate-bolas rápidos, pois sei que nem sempre temos tempo ou paciência de ler textos longos. Eu tenho um lado humorístico também. Ele aparece no blog quando atiço os meus leitores com perguntas e brincadeiras.


Perfumes & Etc - O que você acha que falta atualmente na indústria Brasileira de Perfumaria?
Simone Shitrit - A perfumaria brasileira não fica atrás de nenhuma do mundo. Nossos perfumes são bem elaborados, criativos e inovadores. Possuimos fragrâncias regionais maravilhosas como as amazônicas. Falta conhecimento de perfumaria de nicho. Falta desenvolvimento técnico. Nossos perfumistas fazem muitos cursos no exterior. Falta uma escola de perfumaria nacional. Falta discutir perfumaria. Faltam eventos ligados a perfume de acesso ao público leigo. Acho que perfumaria nacional não se restringe somente as maravilhosas empresas da Natura e do Boticário. Existem outras marcas oferecendo produtos interessantes.


Perfumes & Etc - Agora, conte-nos um pouco sobre os teus gostos pessoais. Quais são as tuas fragrâncias prediletas, no momento?
Simone Shitrit - Realmente você colocou bem ao perguntar sobre as minhas fragrâncias preferidas deste momento. Não consigo manter uma relação muito fiel com meus perfumes. Uso vários, deixo de usá-los, volto a usar de novo numa outra fase da vida. Procuro estar aberta sempre a novas experiências olfativas. Gosto muito de florais frutais e chipres. Na verdade, quem olha para dentro de meu armário deve ficar espantado ou achar que eu sou louca devido a quantidade de frascos de perfume que eu tenho. Atualmente comecei a gostar de cítricos, um tipo de fragrância que não me interessava antigamente. Estou usando algumas fragrâncias da marca Ormonde Jayne, tais como Frangipani, Champaca e Woman. Mas gosto da coleção toda. Tenho um carinho especial por Coco Mademoiselle de Chanel e Euphoria de Calvin Klein. Gosto muito do perfume Summer, de Kenzo. Eu tenho também perfumes que eu chamo de perfumes-conceito, que adquiri por estar fascinada pelo conceito, mas que não uso. Nessa linha tenho o Black, de Bvlgari e Elixir de Merveilles, de Hermès. Você também tem perfumes interessantes. Morro de inveja de não usar o perfume Infusion d'Iris, de Prada que não reage bem ao meu tipo de pele. Eu sei que em você o perfume fica maravilhoso!


Perfumes & Etc - Temos visto surgir uma onda de jovens e talentosos perfumistas. Dentre ele, quais são os que te despertam admiração?
Simone Shitrit - Não é segredo que eu sou fã de Andy Tauer. Acho o perfume LoneStar Memories o perfume mais incrível que já conheci. Acho Linda Pilkington, a criadora dos perfumes Ormonde Jayne extremamente talentosa e de um bom gosto fora do comum. Seus perfumes são chiques e marcantes. Sou fã de Isabelle Doyne que continua assinar pelos perfumes de Annick Goutal, perfumista que também admiro muito e sou apaixonada pelas suas criações. Adoro Calice Becker. Mas o meu grande amor e fonte de inspiração é Jean Claude Ellena. Sou simplesmente fascinada por ele, pela sua paixão e devoção aos perfumes. First foi meu primeiro perfume (risada). Mas eu tenho uma lista longa. Lembrei desses agora.


Perfumes & Etc - Para finalizar, como você vê o futuro do circuito nacional de perfumaria - tanto em termos literários (blogs, livros), quanto no setor industrial?
Simone Shitrit - Na minha opinião, somos pioneiras na blogosfera e espero que possamos inspirar muitas pessoas para que não só desenvolvam essa paixão por perfumes, mas que discutam conosco, discutam em seus próprios espaços. Eu sinto que aos poucos os brasileiros estão entrando mais a fundo e se interessando mais sobre o assunto. Tem até personagem de novela da Globo perfumista! Acho que muitos livros serão traduzidos para o português e muitos serão escritos por entendidos do assunto. Acho que nós, que somos formadores de opinião devíamos nos juntar para elaborar algum projeto. Na área indústrial o crescimento ainda está maior na fatia das fragrâncias para domosanitários. Porém eu já escrevi um artigo no meu blog sobre o crescimento dos países do BRIC, do desenvolvimento da influência na formação de opinião e de tendências para perfumaria e moda.


Perfumes & Etc - Simone, foi um imenso prazer receber-te no Perfumes & Etc. Somos (falo no plural, pois englobo boa parte dos meus leitores) grandes admiradores do teu trabalho. Continue-nos encantando com o Mais que Perfume, um espaço alegre e branché, onde as mais diversas formas de expressão artística unem-se a um universo perfumado.
Simone Shitrit - O convite me deixou super feliz pois voltamos a fazer algo juntas! Para mim é muito importante saber que o seu blog busca ouvir outros autores. Adorei bater papo e espero poder continuar sempre dividindo essa paixão por perfumes com você. Afinal nós temos muitas afinidades e interesses que extrapolam as fragrâncias!!!



Ilustração ao alto - Simone Shitrit. Ilustração utilizada com a permissão de Simone Shitrit. Reprodução proibida.



21 de junho de 2009

Stella


Stella


Autores: Gaëlle Morel e Leo Hegg


Stella McCartney faz parte da geração de estilistas britânicos que explodiram em meados dos anos 90. Tal e qual seus contemporâneos John Galliano, Matthew Williamson e Alexander McQueen, Stella diplomou-se pela reputada Saint Martin College of Art & Design. O desfile de sua coleção de formatura fez furor, contando com ninguém menos que as supermodels Naomi Campbell, Kate Moss e Yasmin Le Bon, e mostrando a base do que seria seu estilo - criações fluidas com grande ênfase na alfaiataria, e uma aura que poderia ser descrita como uma mistura de English Rose e Carnaby Street.

Digna filha do ex-Beattle, Sir Paul Mc Cartney e de sua primeira esposa, a fotógrafa e ativista americana Linda McCartney (nascida Eastman), Stella segue a mesma ideologia de respeito à natureza e proteção aos animais, adotada por seus pais. Como Linda McCartney, Stella é vegetariana e ativista do PETA (People for the Ethical Treatment of Animals), recusando-se a usar peles e couros naturais em suas coleções. E foi em homenagem a Linda, falecida aos 56 anos em 17 de abril de 1998, que Stella criou seu primeiro perfume, lançado em Setembro de 2003.

Linda McCartney adorava rosas inglesas, e costumava sempre manter um vaso de flores frescas em sua mesa. "Esse foi o aroma com o qual cresci"*, declarou Stella, que procurou recriar a beleza e fragilidade do exato momento de vida das rosas antes que suas pétalas tombem.* O perfumista Jacques Cavallier assegurou-se que tal desejo fosse satisfeito, desenvolvendo uma fragrância menos complexa que suas criações precedentes.

Uma abertura discreta de peônia e mandarina é seguida pela grande estrela da composição, a rosa. A fusão entre a peônia, a essência de rosas e a mandarina proporciona uma sensação de frescor e suavidade, que é sucedido pelo absoluto de rosas, impondo uma certa profundidade ao conjunto. O âmbar ao fundo contribui com uma faceta de sensualidade e mistério. Apesar de não estar listado entre os componentes oficiais, apostamos na presença do almíscar na penúltima fase de evolução, antes que a dupla âmbar-absoluto de rosas domine o espetáculo.

Stella eau-de-parfum vem em um frasco de inspiração retrô, cujo design de facetas lapidadas e a coloração em dégradé de ameixa parecem evocar os anos 30, quando as embalagens tendiam a ser mais conservadoras e menos elaboradas, respeitando o clima pós-crash de 1929. O efeito sillage (rastro de perfume que paira no ar) é mínimo, o que quer dizer que a fragrância fica próxima do corpo. O poder de fixação foi satisfatório, e a permanência diferiu na pele dos autores (Gaëlle: 5 horas, Leo: mais de 20 horas).

Stella é um perfume perfeitamente condizente com as criações de Stella McCartney, unindo sutilidade e elegância, sem trair as origens britânicas da estilista. Também é uma bela declaração de amor a Linda, que costumava dizer que a simplicidade é a resposta.* Definitivamente, Stella McCartney teve a quem puxar.


Canção: Silly Love Songs - Paul Mc Cartney & Wings (1976) - participação de Linda McCartney
(clique na seta para ouvir)




Citações - *"It's just the smell I grew up with." - Stella McCartney
- *"I wanted to capture that beauty and fragility. That moment of perfection." - Stella McCartney
*"I don't need a lot of money. Simplicity is the answer for me." - Linda McCartney

Ilustrações ~ primeira à direita - English Rose - vintage poster
~ à esquerda - foto Linda McCartney - Paul, Stella and James - Scotland, 1982 - James Hyman Gallery
~ segunda à direita - Linda e Stella fotografadas no início dos anos 70



11 de junho de 2009

Omnia Green Jade


Omnia Green Jade


Omnia Green Jade é mais uma edição da coleção Omnia, de Bvlgari. Desenvolvida por Alberto Morillas, que também criou Bvlgari Blv feminino, Blv Note (masculino e feminino) e todos outros componentes da linha Omnia, bem como o original, Green Jade é classificado como um floral aquático. "Eu pensei na cor verde com sombras brancas, na energia dessa pedra milenar, símbolo do bom, do belo e do precioso"*, foi a definição de Morillas.

A fragrância foi inspirada pela pureza do jade verde, pedra que representa vida, juventude e crescimento pessoal, ajudando a quem a porta a descobrir seus desejos mais íntimos. O jade verde é associado ao chackra do coração, e facilita a expressão do amor.

Ligado a tal simbologia, eu esperava uma eau-de-toilette leve e etérea, e não fui decepcionada. A abertura evoca frescor e luminosidade unindo o caráter amargo da flor de pereira a mandarina. A peônia branca entra logo após, seguida por uma nota aquática. O jasmim impõe uma certa suavidade, que é temperada pela pistache em um fundo amadeirado e almiscarado. Essa terceira fase é, na minha opinião, a melhor - a sensação de conforto trazida pela união do almíscar e das notas amadeiradas, pouco antes que a pistache entre em cena.

Em termos de evolução, eu poderia dizer que a abertura de Omnia Green Jade é definitivamente "verde" e ligeiramente acre, passando a uma junção verde aquática, seguida por uma etapa que lembra vagamente a última fase de Infusion d'Iris, de Prada, assim permanecendo até o fim, quando uma determinada nota verde, que acredito ser a pistache, parece querer fazer surface. Verde - Branco - Verde, como as facetas do jade, e o conceito inicial de Morillas.

Tal como a pedra inspiradora, Omnia Green Jade é juvenil, lembrando-me paisagens abertas e passeios por parques em dias ensolarados. Um dia alegre passado em um elegante jardim italiano, essa é a imagem que vem-me a mente. Apesar de não ter-me despertado o desejo de adquirir um frasco, considero a última criação em data de Bvlgari como a melhor variação de Omnia, preferindo-a a Amethyste e Crystalline.

Por sua leveza e discrição, Omnia Green Jade é perfeitamente indicada para climas quentes, ambientes de trabalho e reuniões informais. O poder de fixação foi satisfatório, permanecendo 4 horas na minha pele e o efeito sillage é modesto.


PS - Dedico esta review a minha amiga Elisabeth Casagrande, "The Green Lady" por excelência :0)



*Citação - “I thought of its colours, green with white shadows, of the energy of this millenary gemstone, symbol of the good, the beautiful and the precious.” - Alberto Morillas

Ilustrações ~ ao alto - imagem de publicidade de Omnia Green Jade, de Bvlgari
~ à direita - An Italian Garden (cerca 1909), de William Merritt Chase (1849-1916)
~ à esquerda - Capa do livro
Edith Wharton's Italian Gardens, de Vivian Russell e Edith Wharton


8 de junho de 2009

Brincando de Perfumista - MyParfuem


Brincando de Perfumista - MyParfuem


Após ler a matéria no site Fragrantica falando da firma MyParfuem, que possibilitou ao grande público a elaboração de uma fragrância personalizada, eu não pude resistir a criar um perfume Gaëlle.

MyParfuem é uma empresa alemã que propõe a personalização de uma eau de parfum, disponibilizando um menu de 30 ingredientes exclusivos (no momento em que escrevo) a serem selecionados e integrados a uma das bases oferecidas. Entre as bases, constam: Female Flower (base floral), Female Fresh (elementos florais e frutais para um resultado esportivo e fresco), Female Fruity (base frutal), Female Exotic (uma base oriental com especiarias), Male Green (notas verdes), Male Spicy (especiarias), Male Fresh (a contraparte masculina de Female Fresh) e Male Exotic (versão masculina de Female Exotic).

O primeiro passo é a especificação do gênero (masculino ou feminino), seguindo-se pela escolha da base. O grande problema é que as mesmas são pré-produzidas, e o cliente fica no escuro, sem saber ao certo o que cada uma contém, contando somente com os descritivos gerais. Pensando que uma base oriental adequaria-se bem às notas que pretendia selecionar, escolhi Female Exotic.

Sem conhecer os ingredientes da base, optei pela simplicidade. Não queria um festival de notas em um fundo diversificado demais, criando um carnaval olfativo. Sendo assim, selecionei 4 componentes: amêndoas, baunilha, canela e cereja.

Um oriental moderadamente gourmand, tendo a amêndoa como grande estrela era o meu objetivo. Para tanto, graduei as proporções (numa escala de concentração de 1 a 3): 3 x Amêndoas, 2 x Baunilha, 1 x Cereja, 1 x Canela.

O segundo passo foi a a escolha do nome do perfume e da embalagem. Simploriamente, batizei minha primeira criação Gaëlle, e optei por um frasco com motivos abstratos em tom rosa. Desembolsei o valor de 29 Euros mais 6.90 Euros de custo de transporte, e esperei uma semana para o recebimento do meu frasco de 30ml.

O que recebi - Uma caixa contendo um certificado, um folheto explicativo, o código do meu perfume, um bônus de redução para futuras compras, e, claro Gaëlle (o perfume), devidamente colocado no meio da embalagem caprichada.

Gaëlle, o perfume - Resumindo: um grande desapontamento! Ao retirar a tampa, um aroma indefinido de colônia masculina invadiu minhas narinas. Ao tentar decriptar as notas, pude perceber a cereja e a amêndoa, que, tímidas e quase imperceptíveis tentavam submergir, sendo devoradas pela horrível base, que lembrava-me uma versão oriental de um desodorante Axe (ou Adidas). Após quarenta minutos, durante os quais mantive a esperança de uma mudança drástica na evolução da fragrância que poderia fazer valer a minha compra, a mesma... PUFT!...desapareceu.

Conclusão - Felicito MyParfuem pela idéia, que permite a cada um brincar de perfumista com um capital reduzido. Entretanto, as bases pré-formuladas são difíceis de serem trabalhadas, podendo levar a um resultado final completamente diferente do desejado.

Inúmeros pequenos e-tailers americanos disponibilizam um serviço semelhante, permitindo a criação de uma fragrância pessoal (sem a particularidade de seu nome impresso na embalagem), pela seleção de óleos aromáticos diversos, o que considero uma excelente opção na busca de individualização com baixos custos. Depois de uma primeira tentativa fracassada, eu não repetiria a brincadeira. Afinal, com 29 Euros eu poderia apostar em uma fragrância elaborada por um dos e-tailers citados, ficando certamente mais satisfeita. Sorry, MyParfuem!


Ilustrações ~ ao alto e à direita - Gaëlle, de Gaëlle Morel - eau de parfum fabricada pela empresa alemã My Parfuem - Fotos de coleção pessoal (reprodução proibida)



4 de junho de 2009

The Madonna of the Almonds


The Madonna of the Almonds


The Madonna of the Almonds é o novo livro de Marina Fiorato, jovem autora de origem Veneziana, nascida em Manchester. Marina que conheceu grande sucesso com o best-seller "The Glassblower of Murano", retorna ao tema da Renascença Italiana, dessa vez narrando o amor entre o pintor da escola lombarda Bernardino Luini e a nobre Simonetta di Saronno.

The Madonna of the Almonds é também um perfume, o mais recente lançamento de Floris of London, confeccionado em edição limitada em homenagem ao livro homônimo.

O Livro - Toscana, século XVI - A jovem e bela Simonetta acaba de perder seu amado marido Lorenzo em uma das batalhas feudais entre os estados Italianos. Descobrindo que Lorenzo não havia deixado muito dinheiro, Simonetta resolve explorar uma amendoeira em sua propriedade. Precisando de capital para o lançamento de seu negócio, Simonetta concorda em posar como modelo para um artista de nome Bernardino, pupilo de Leonardo da Vinci, que tem como projeto a pintura de murais na igreja. Bernardino, um sedutor cínico, surpreende-se ao apaixonar-se pouco a pouco por Simonetta. Durante um beijo trocado, ambos são flagrados pelo ajudante de Lorenzo, que fiel ao seu falecido mestre, denuncia-os a igreja. Bernardino deve fugir, e Simonetta retira-se em reclusão em sua casa. Durante esse período de tristeza e solidão, Simonetta cria um licor de amêndoas que viria a restituir a sua fortuna. O licor em questão nada mais é do que o famoso Amaretto.

O Perfume - The Madonna of the Almonds evoca a Italia em sua abertura de notas de limão e bergamota. O coração da fragrância é composto de amêndoas e jasmim, em fundo de baunilha, notas frutais, especiarias, incenso, sândalo e almíscar (notas oficiais divulgadas por Floris). Tendo o licor Amaretto como tema, o novo lançamento de Floris of London promete reunir o caráter voluptuoso da bebida com o bucolismo da paisagem medieval italiana.


Bernardino Luini, ou Bernardino de Scapis, realmente existiu, tendo nascido em 1481, em Runo, e falecido em 1532. Entre seus trabalhos, podemos citar a Adoração dos Magos (exposta no Louvre), e os afrescos da Madonna, em Saronno. A parte suas obras, cujo estilo evoca o mestre Da Vinci, não muito é conhecido sobre sua vida particular, o que permitiu a Marina Fiorato desenvolver a trama associando a imagem de Bernardino a lenda do Amaretto.

Uma estória de amor e arte, beleza e guerra que pode ser lida, e imaginada, ao exalarmos os eflúvios de seu próprio perfume. O que poderia ser mais poético?



Ilustrações ~ ao alto - capa do livro "The Madonna of the Almonds", de Marina Fiorato
~ à direita - La vierge à l’enfant (Madone de la roseraie), de Bernadino Luini (1508/1509)
~ à esquerda - "The Madonna of the Almonds", eau de parfum de Floris of London




LinkWithin

Blog Widget by LinkWithin